O FACTOR (X) DA REALIZAÇÃO

15 Set

No seguimento do que tem sido um ano pautado pela presença feminina por de traz das câmaras, nos mais prestigiantes prémios do mundo do cinema. Sofia Coppola viu o seu mais recente filme, “Somewhere” arrebatar no passado dia 11, o Leão de ouro do Festival De Veneza 2010. Também já tínhamos assistido no inicio deste ano, Kathryn Bigelow tornar-se na primeira mulher a ganhar o Oscar para melhor realização (referente ao seu filme de 2009 Estado de Guerra/Heart Locker). Dito isto, resolvemos partir a aventura e descobrir se estamos em “época de monções” para as cineastas femininas, se tratou-se apenas de uma “chuva episódica”, ou antes de um oásis…

Começamos por dizer que a realização de filmes por parte das mulheres, não tem sido de proporções episódicas, mas infelizmente também não tem tido o indicie das monções. A sua presença tem se feito sentir ao longo dos tempos, embora numa proporção demasiado inferior a masculina, se compararmos as quotas percentuais. Mas se ao nível da qualidade cinematográfica dos seus filmes, esta desvantagem não se tem feito notar. Já ao nível da exposição e principalmente da distinção por parte dos seus pares, tem se registado um verdadeiro oásis! Tendo-se revelado praticamente impossível para as mulheres, manterem uma carreira cinematográfica de longa duração, e com a desejada regularidade (sendo comum encontrarmos realizadoras, espontâneas e esporádicas, com um, dois, filmes no currículo. Muitas vezes artistas que provem de outras áreas, e que deixam o seu manifesto cinematográfico!). Siderados por esta visão, decidimos então prestar aqui um tributo, algumas daquelas mulheres que contribuíram e tem contribuído, para este fascinante lado (X) do cinema.

Alice Guy Blanché (1873-1968): é reconhecida como sendo a primeira mulher realizadora da história. A francesa foi também dos realizadores pioneiros, no desenvolvimento da narrativa cinematográfica. A sua carreira teve inicio em 1896 com o filme La Feé Aux Chaux/The Cabbage Fairy, e prolongou-se a por cerca de 25 anos, até 1920. Dividindo-se pela produção, realização, e escrita para argumentos, em cerca 700 filmes supervisionados por si ao longo da sua carreira.

Safi Faye: nasceu em 1943 no Senegal. E o seu filme Kaddu Beykat/Letters From My village de 1975, tornou-se no primeiro filme de ficção, realizado por uma mulher da África subsariana, a ser comercialmente distribuído, e a merecer o reconhecimento e aplauso da crítica mundial. Manteve uma obra regular entre a ficção e o documentário, até 1996 ano de que data a sua ultima obra.

Ida Lupino (1918-1995): anglo-americana de nacionalidade, foi apenas a segunda mulher depois de Dorothy Azner, a trabalhar dentro do sistema dos grandes estúdios, na época de ouro de Hollywood. Com uma carreira que multiplicou-se entre a representação (59 filmes), a de guionista e realizadora para cinema (9) e TV (50). Destacando-se desses filmes para cinema, Outrage (1950), The Bigamist (1953) e de Hitch-Hiker (1953, considerado o primeiro filme “Noir” dirigido por uma mulher. Foi seleccionado para preservação, no Unitated States Film Registry).

Shirley Clark (1919-1997): em 1955 tornou-se membro do “Independent Filmakers of America”. Recebeu mesmo uma nomeação para os Oscars em 1960, pela curta-metragem SKyscraper( que tinha a duração de 20min, e testemunhava a construção do edifício 666 da 5ª Avenida). Mas o seu trabalho mais venerado é o documentário The Cool World de 1963 (filmado no local, no Harlem. Que aborda a vivência dos gangs negros, distanciando-se olhar paternalista de Hollywood).

REALIZADORAS E OS OSCARS

Toda esta exposição secundária de que são vitimas as mesmas, também se tem feito notar nos oscars. Pois em 82 cerimónias realizadas, apenas 4 mulheres foram nomeadas neta categoria. Tendo a primeira vez apenas acontecido em 1976 (quando a realizadora Italiana Lina Wertmuler, foi nomeada pelo seu filme Seven Beauties); seguindo-se somente no ano de 1994 (a Australiana Jane Campion, em O Piano); sucedendo-lhe em 2003 (Sofia Coppola por Lost In Translation, que foi a primeira Americana a ser nomeada); e finalmente em 2010 (por Kathryn Bigelow, galardoada com o Oscar pelo seu filme Estado de Guerra/The Heart Locker).

É justo dizer-se, que talvez na origem da derrota das outras mulheres nomeadas, esteja a difícil concorrência com que se debateram no ano das suas nomeações 1976 (John G. Avildsen-Rocky, Sydney Lumet-Network e Alan j. Pakula-OS Homens do Presidente), 1994 (Steven Spielberg-A Lista De Schindler), 2003 (Peter jackson-O Regresso Do Rei, Clint Eastwood-Mystic River, Fernando Meirelles- Cidade de Deus). Ao passo que Bigelow poderá ter beneficiado de um ano em que a única concorrência real a sua magnifica realização, advinha de James Cameron-Avatar. Sendo ainda curioso  verificar, tratar-se  esta de ser  uma daquelas realizadoras cuja obra, ajuda a desmistificar a ideia que a realização no feminino tenderia a ser mais vocacionada para filmes mais intimistas e sensíveis (normalmente conotada, com o drama, romance e comédia).

REALIZADORAS PREMIADAS EM VENEZA

A realizadora agora agraciada, veio juntar-se a um grupo de distintas realizadoras também distinguidas. Indo um pouco contra a maré, digo que até a data Sofia Coppola não figura entre as minhas realizadoras favoritas, (ressalvando que ainda não vi este seu filme agora premiado. Digo que na minha opinião os anteriores 3, se pautam por uma entusiasmante obra de estreia, um bom filme, que esta longe de ser uma “masterpiece”! E um filme medianíssimo a rasar a mediocridade). Mas que contudo, o peso do seu nome tem sido importantíssimo para despertar um outro olhar sob a realização feminina.

Margareth Von trotta, a mais proeminente realizadora alemã dos últimos anos, é um dos membros do Movimento do Novo Cinema Alemão. Venceu o Leão de Ouro em 1981, Pelo filme Marianne And Juliane. Agnés Varda escreveu, realizou e editou, o filme vencedor em 1985 do Leão de Ouro (Sans Toit Ni loi/Vagabond). Embora conotada com a Nova Vaga Francesa, é no entanto mais assertivo enquadra-la na ala do Cinema Francês de Esquerda, fortemente comprometido com o “Nouveau Roman”. Mira Nair é hoje a mais consagrada realizadora asiática, tendo acumulado os mais diversos prémios em festivais de cinema. Venceu em 2001 o Leão de Ouro, pelo aclamado Monsoon wedding/Casamento Debaixo de Chuva. A realizadora indiana, tem se mantido batante activa, dividindo se por produções em Hollywood e na sua terra natal.

A terminar realçamos alguns nomes do passado, bem como de hoje que deram o seu contributo a realização: Vera chytilova, Marguerite Duras, Leni Riefenstahl (caída em desgraça dada a sua infame colaboração com o Terceiro Reich. Contudo o seu filme Triumph of The will, mantêm-se como um marco da inovação no cinema), Randa Heines, Penny Marshal (a primeira mulher a ultrapassar a marca dos 100 milhões nas bilheteiras, com o filme Big), Nora Ephron e Barbra Streisand (que nas décadas de 80 e 90 dirigiu 3 filmes aclamados, entre eles o Príncipe Das Mares, que 1991 recebeu 7 nomeações para Oscar, incluindo a de melhor filme).

Seleccionamos para vídeo da semana o filme casamento Debaixo De Chuva, de Mira Nair. Onde o cinema ocidental se funde com o oriental, em que a nova Índia e o novo cinema indiano, se fundem par nos dar uma perspectiva da índia do século XXI.



http://www.youtube.com/v/sjQjw-UyAX0?fs=1&hl=pt_PT&color1=0x234900&color2=0x4e9e00

2 Respostas to “O FACTOR (X) DA REALIZAÇÃO”

  1. Ana Setembro 16, 2010 às 11:43 am #

    È inegável o contributo, que estas realizadoras deram ao mundo do cinema,mas,realmente, quer pela concorrência forte, quer por outro factor qualquer, não têm tido muito reconhecimento (em termos de resultados práticos: vencer prémios!) ..
    Não tendo visto ainda o filme “Estado de Guerra” (estou bastante curiosa para ver!!),não poderei opinar…
    Só espero que,vencendo ou nao,elas,(e os realizadores também🙂 ) continuem a contribuir da melhor forma possivel para o cinema… pois assim, seremos nós quem fica a ganhar!🙂

  2. daniel baptista Setembro 16, 2010 às 3:28 pm #

    Olá Ana! É um facto o enorme contributo delas para esta maravilhosa arte que é o cinema, e esperemos que de futuro esta janela que agora se abre de reconhecimento do seu valor, possa ser consolidada. (Assim que tiveres oportunidade, vê o Estado de Guerra… Aborda a guerra de um prisma não convencional, bastante actual e a realização esta de facto excelente🙂 )! Faço meus, os teus votos porque de facto quem sai a ganhar com essa diversidade ao nível da realização, somos nós espectadores🙂.

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